Hoje quero partilhar convosco uma ferramenta interessante que encontrei e que pode trazer-vos resultados curiosos.
Mas primeiro, deixem-me contar-vos a história de como a descobri.
Há alguns anos, passei por um dos momentos mais difíceis da minha vida. Tinha uma namorada na altura e ela passava muito tempo comigo, apesar de eu viver sozinho. Ela deu-me muito apoio nessa fase complicada.
Mas houve uma noite em que estava sozinho em casa e atingi um pico de ansiedade. Tinha comprimidos para dormir por prescrição médica, que nunca usava por receio de ficar dependente. Mas essa noite foi realmente dura e decidi tomá-los.
Passou uma hora e ainda não conseguia dormir, mesmo com os comprimidos. A minha mente não parava de pensar, os problemas assombravam-me e sentia que estava a ficar ainda mais longe do sono. É como um círculo vicioso: não dormimos porque estamos ansiosos, e depois ficamos mais ansiosos porque não conseguimos dormir.
A certo ponto, não aguentava mais. Queria falar com a minha namorada, mas sabia que ela estava a dormir e não queria acordá-la com os meus problemas.
Então, decidi enviar-lhe um e-mail.
Na altura, pareceu estranho porque só o iria ler de manhã, o que não era muito eficaz naquele momento. Mas precisava de fazer algo.
A minha mente estava num verdadeiro turbilhão, então comecei a escrever sobre o que sentia, e, por alguma razão, não conseguia parar. Escrevia e divagava, sem conseguir interromper para pensar.
Repetia frases, partilhava pensamentos aleatórios, sem me preocupar se faziam sentido ou não.
A certo ponto, senti a ansiedade a diminuir, e de repente senti que podia parar. Fechei o computador, fui para a cama e adormeci imediatamente.
No dia seguinte, li o que tinha escrito e apercebi-me de que aquilo era um vislumbre fascinante da minha mente. Algumas partes estavam muito repetidas, o que penso ser um sinal da sua importância.
Esse episódio ficou na minha memória, quase como se pertencesse a outra vida. Nunca o repeti.
Anos mais tarde, estava a ver um documentário sobre o desenvolvimento de um jogo (sou programador de jogos) e um designer de jogos que admiro, Tim Schafer, mostrava o seu processo criativo. Ele projetou vários jogos incríveis e tinha cadernos onde guardava notas sobre os jogos. Depois, mostrou um novo caderno limpo para iniciar o trabalho no novo jogo.
Assim que começou, a minha mente lembrou-se daquele episódio do passado. O processo dele era simplesmente escrever sem parar sobre qualquer coisa. Preenchia várias páginas antes de chegar a algo relacionado com o jogo.
Nesse momento, tive dois pensamentos:
- Uau, as pessoas realmente fazem isto!
- Porque nunca explorei isto desde aquele dia? Foi tão eficaz!
Comecei a investigar mais e descobri que esta técnica se chama “Escrita Livre” ou “FreeWriting”.
Existe muita informação sobre o tema, mas vou focar-me num artigo que encontrei na Psychology Today, escrito por Vivian Wagner, PhD.
Neste artigo, Vivian fala sobre esta técnica como uma ferramenta incrível para desbloquear a criatividade e gerar novas ideias.
Pensem nisto como um fluxo de consciência, uma forma de se conectarem com o vosso inconsciente sem filtros.
Curiosamente, no século XIX, os médiuns usavam esta técnica para alegadamente se comunicar com espíritos. Chamavam-lhe “Escrita Automática”.
Ela dá vários exemplos de escritores que usaram esta técnica ao longo dos anos. Podem ler o artigo aqui: https://www.psychologytoday.com/intl/blog/the-creative-life/201708/the-magic-of-freewriting.
Um deles, Peter Elbow, no seu livro Writing Without Teachers (1975), diz:
“Escrever sem parar por nada. Avancem rapidamente sem pressa. Nunca parem para corrigir, para pensar na ortografia, para procurar a palavra certa ou refletir sobre o que estão a fazer.”
Isto parece muito com o que fiz naquela noite. E isso leva-me a acreditar que esta técnica pode ser usada não só para exercícios de criatividade, mas também como uma ferramenta para a saúde mental. A minha experiência mostra que pode ajudar a reduzir crises de ansiedade e a ganhar clareza sobre aquilo que realmente nos preocupa.
Muitas vezes achamos que sabemos o que nos preocupa, mas há algo mais profundo. Esta técnica pode ajudar-nos a descobrir o que está escondido.
Então, como funciona?
Passos:
- Peguem numa folha em branco e uma caneta, ou abram um documento vazio no computador.
- Comecem a escrever qualquer coisa a um ritmo constante. Não precisam de ser rápidos, mas tentem não parar.
- Não se preocupem com erros ortográficos.
- Não se preocupem se escolheram a melhor palavra ou se estão a repetir algo.
- Se não souberem por onde começar, escrevam “Hoje sinto-me…” e continuem.
- Se precisarem, usem gatilhos como “Eu quero…”, “Eu preciso…”, etc.
- O importante é deixar fluir. Se sentirem que estão a repetir algo, talvez seja porque é importante.
Essa página é vossa. Ninguém precisa de a ler. Sem pressão, sem filtros, sem julgamentos.
Se pensarmos bem, este processo é semelhante a uma sessão de terapia, onde exploramos a mente através da conversa.
Olhando para trás, arrependo-me apenas de ter enviado aquele e-mail. Porque, na verdade, ele não era para a minha namorada, mas sim para mim mesmo.
Pergunto-me se a razão de nunca ter repetido esta técnica desde então é o medo do que o meu inconsciente tem para me dizer.
Espero que este episódio tenha sido útil e que experimentem esta técnica. Partilhem comigo os vossos resultados!




