Se tens PHDA, é possível que já tenhas vivido este momento.
Estás numa entrevista, numa reunião ou numa conversa técnica. A pergunta não é particularmente difícil. Na verdade, sabes que já trabalhaste com aquele conceito várias vezes.
Mas, naquele momento, o termo exacto simplesmente não aparece.
Ficas alguns segundos em silêncio e surge logo um pensamento:
“Eu devia saber isto.”
Esse pequeno momento de hesitação pode ser suficiente para acender ao síndrome do impostor.
Mas muitas vezes o que está a acontecer não é falta de conhecimento.
Nem todo o síndrome do impostor vem do mesmo sítio
O síndrome do impostor pode ter várias origens.
Para algumas pessoas com PHDA está ligado ao medo de falhar, muitas vezes depois de experiências negativas no passado.
Para outras, aparece por causa da inconsistência de desempenho — dias em que tudo parece fácil e outros em que tarefas simples parecem impossíveis.
Neste artigo vamos focar-nos numa faceta muito específica, mas muito comum:
a dificuldade em recuperar rapidamente conhecimento que na realidade já compreendemos.
Compreender não é o mesmo que recuperar informação
Existe uma diferença importante entre compreender um conceito e conseguir recuperar a palavra ou explicação exacta sob pressão.
A PHDA pode afectar a memória de trabalho e a velocidade com que o cérebro recupera informação. Isso significa que uma pessoa pode entender perfeitamente como algo funciona, mas ter dificuldade momentânea em lembrar-se do termo certo ou da forma mais clara de o explicar.
Curiosamente, quando alguém menciona o conceito outra vez, a memória volta quase instantaneamente.
Muitas pessoas com PHDA reconhecem bem esta sensação:
“Ah… claro. Eu sabia isto.”
Isto não é falta de inteligência ou de competência.
É muitas vezes apenas uma diferença na forma como o cérebro acede à informação.
A armadilha do auto-julgamento imediato
Quando nos esquecemos de um termo ou hesitamos numa explicação, é muito fácil interpretar isso como prova de incapacidade.
O diálogo interno pode começar a soar assim:
- “Eu sabia isto antes.”
- “Porque é que me estou a esquecer de coisas simples?”
- “Se calhar não sou tão competente como as pessoas pensam.”
Com o tempo, estes pensamentos alimentam o síndrome do impostor — aquela sensação persistente de que, mais cedo ou mais tarde, alguém vai descobrir que afinal não sabemos assim tanto.
Mas esta interpretação ignora algo importante.
Mesmo naquele momento de hesitação, a pessoa continua a compreender os sistemas, os conceitos e o raciocínio por trás deles.
O bloqueio está muitas vezes na velocidade de recuperação, não no conhecimento.
Forças que muitas vezes acompanham a PHDA
Curiosamente, muitas pessoas que têm dificuldade com recuperação rápida de informação têm também características muito valiosas em áreas complexas.
Entre elas:
- curiosidade intensa quando algo desperta interesse
- capacidade de ligar ideias entre diferentes áreas
- criatividade na resolução de problemas
- facilidade em raciocinar em conversa
- capacidade de criar empatia e ligação com outras pessoas
Em muitos contextos profissionais — especialmente em equipas — estas capacidades são tão importantes quanto lembrar-se rapidamente de um termo técnico específico.
Formas de preparação que funcionam melhor para cérebros com PHDA
Os métodos de estudo mais tradicionais — como reler apontamentos várias vezes — muitas vezes não funcionam particularmente bem para cérebros com PHDA.
Abordagens que envolvem recuperação activa da informação tendem a ser muito mais eficazes.
Por exemplo:
- praticar perguntas em voz alta em vez de apenas ler notas
- fazer sessões curtas e focadas em vez de blocos longos de estudo
- simular entrevistas ou discussões técnicas
- explicar conceitos pelas próprias palavras
Este tipo de prática treina o cérebro para recuperar informação sob pressão, não apenas para a reconhecer quando a vê escrita.
Usar a comunicação como uma força
Muitas pessoas com PHDA têm uma grande facilidade em conversar, explicar ideias e construir raciocínios em conjunto.
Em vez de ver a conversa como uma distração, ela pode tornar-se uma ferramenta poderosa.
Por exemplo:
- fazer perguntas de clarificação
- pensar em voz alta
- construir o raciocínio passo a passo
- explorar soluções com outras pessoas
Em entrevistas e discussões técnicas, muitas vezes o que realmente importa não é dar uma resposta perfeita de manual, mas mostrar claramente o processo de raciocínio.
Reenquadrar a narrativa
O síndrome do impostor alimenta-se muitas vezes de pequenos momentos de hesitação.
Mas esses momentos não definem a capacidade de alguém.
Uma perspectiva mais justa pode ser algo como:
- “A minha compreensão é sólida, mesmo que às vezes precise de um momento para recuperar a informação.”
- “Consigo raciocinar e resolver problemas, mesmo quando não me lembro imediatamente de todos os termos.”
- “A recuperação da informação também se pode treinar.”
O objectivo não é eliminar completamente a hesitação.
É perceber que hesitar não invalida o conhecimento que está por trás.
Uma visão mais ampla
Para muitas pessoas com PHDA, o desafio raramente é falta de inteligência ou de capacidade.
O desafio está muitas vezes em aprender a criar ambientes e hábitos que permitam que as suas forças apareçam de forma consistente.
Quando isso acontece, a curiosidade, o pensamento profundo e a capacidade de adaptação tornam-se grandes vantagens profissionais.
E muitas vezes, aquele momento que começa com:
“Porque é que não me estou a conseguir lembrar disto?”
acaba por revelar algo diferente:
afinal sabemos muito mais do que pensávamos.



