O termo “coach” está por todo o lado: coach de vida, de carreira, de produtividade, de saúde, de sono, de alimentação… e, claro, de PHDA. Mas até que ponto este fenómeno é positivo? Quem está verdadeiramente habilitado a acompanhar alguém com desafios de saúde mental ou física? Neste artigo, exploramos os diferentes tipos de acompanhamento designado como coaching, com foco especial na PHDA, mas também com um olhar crítico sobre as fronteiras entre este tipo de apoio e as práticas profissionais de saúde.
O que é Coaching?
Coaching é um processo de desenvolvimento pessoal orientado para a acção. Não é terapia, nem substitui o acompanhamento por profissionais de saúde. Um coach ajuda a clarificar objectivos, identificar obstáculos, organizar planos e oferecer suporte prático. Pode ser útil em muitos contextos — desde que se saiba exactamente para que serve e onde termina a sua actuação.
Tipos de Coaching com relevância para PHDA
- Acompanhamento para PHDA É o mais indicado para quem tem PHDA. Ajuda a:
- Organizar tarefas e rotinas
- Gerir o tempo e as prioridades
- Superar a procrastinação e iniciar tarefas
- Criar sistemas de apoio à autonomia
- Acompanhamento de Carreira / Profissional Focado no desenvolvimento profissional. Pode ser útil para pessoas com PHDA desde que o técnico conheça bem os desafios associados à condição.
- Acompanhamento Pessoal Ajuda na definição de objectivos pessoais e criação de hábitos saudáveis, mas nem sempre está preparado para lidar com PHDA ou outras condições clínicas.
- Acompanhamento Familiar Dirigido a pais ou cuidadores de crianças com PHDA. Pode incluir rotinas, apoio ao estudo, ou estratégias de comunicação.
- Acompanhamento Académico Apoia estudantes com PHDA na organização do estudo, trabalhos escolares e hábitos de aprendizagem.
O Problema da Expansão do Coaching para Áreas de Saúde
Nos últimos anos têm surgido muitos “coaches de bem-estar”, “coaches de saúde”, “coaches de nutrição”, entre outros. Quando estas práticas se limitam a dar motivação ou estruturar objectivos simples, não há grande problema. Mas quando substituem funções clínicas, estamos perante um risco — e, por vezes, um crime.
Exemplos de práticas problemáticas:
- Alguém que se apresenta como “conselheiro alimentar” ou “coach de nutrição” e prescreve planos alimentares sem estar inscrito na Ordem dos Nutricionistas
- Pessoas que assumem o papel de técnico de nutrição — profissão que não existe em Portugal como categoria oficial reconhecida
- Auto-intitulados “consultores” que, na prática, fazem avaliação do estado nutricional e prescrição alimentar — actos próprios do nutricionista
- Técnicos do sono ou bem-estar que afirmam tratar perturbações do foro psicológico com métodos não reconhecidos cientificamente
Importante: o nutricionista é um profissional de saúde, mas a sua intervenção não se limita a casos de doença. A nutrição clínica é apenas uma das várias áreas da profissão. Nutricionistas também atuam na nutrição comunitária, restauração colectiva (como cantinas escolares ou hospitalares), higiene e segurança alimentar, educação para a saúde e políticas públicas de alimentação. Ou seja, ser saudável não é razão para recorrer a um “coach” em vez de um nutricionista — pelo contrário, o nutricionista está habilitado a acompanhar pessoas saudáveis que querem melhorar a sua alimentação.
Importa também sublinhar que não basta ter um curso ou pós-graduação com o nome de uma profissão para poder exercê-la. Por exemplo:
- Um psicólogo com um mestrado em nutrição clínica não é nutricionista;
- Uma pessoa com mestrado em psicologia não é psicóloga, a menos que tenha formação base reconhecida e inscrição na ordem profissional.
Outro ponto crítico é que não é preciso auto-intitular-se como nutricionista, psicólogo ou terapeuta para estar a cometer uma infração. Muitos profissionais utilizam títulos vagos como “conselheiro alimentar”, “consultor de bem-estar” ou “coach de saúde”, mas durante as sessões praticam actos que são próprios de profissões regulamentadas. Isto chama-se usurpação de acto próprio — e é punível por lei.
Em Portugal, só podem exercer actividades clínicas ou terapêuticas nas áreas da saúde os profissionais que estejam registados nas respetivas ordens profissionais. Quem não estiver inscrito, não pode legalmente exercer actos próprios da profissão, independentemente do título que usa.
Acompanhamento não clínico vs Terapia vs Consultoria Profissional
| Tipo de Acompanhamento | Quem pode exercer | Quando é indicado |
|---|---|---|
| Coaching / Acompanhamento | Qualquer pessoa (não regulamentado) | Quando não há sofrimento psicológico grave; foco em objectivos e acção |
| Terapia (ex. TCC) | Psicólogos/Psiquiatras | Quando há diagnóstico ou sofrimento psicológico/funcional |
| Consultoria (ex. nutrição, fisioterapia) | Profissionais com cédula | Quando se trata de questões clínicas, dietas, tratamentos, etc. |
No caso da PHDA, o acompanhamento pode complementar bem a terapia cognitivo-comportamental (TCC), mas nunca a substituir.
Estratégias complementares ao coaching para PHDA
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
- Técnicas de atenção plena e regulação emocional
- Trabalho em paralelo (“body doubling”)
- Aplicações e ferramentas digitais de apoio à organização
- Mentoria especializada para estudos ou carreira
Regulação do Coaching em Portugal
Em Portugal, o coaching não é regulamentado, o que significa que qualquer pessoa pode usar este título sem ter formação específica, validação académica ou enquadramento legal.
Coaching legalmente aceitável:
- Centrado na definição de objectivos, motivação, hábitos, rotinas.
- Sem intervenção em áreas de diagnóstico, terapêuticas, prescrições alimentares, médicas ou mentais.
Sinal de alerta:
- Um técnico de nutrição que prescreve dietas sem cédula profissional
- Um técnico de bem-estar que afirma tratar perturbações do foro psicológico
- Alguém que diagnostica condições clínicas ou oferece soluções terapêuticas
- Títulos alternativos como “conselheiro”, “facilitador” ou “coach” que ocultam práticas clínicas
Estes casos podem constituir crime ou contraordenação por exercício ilegal da profissão ou usurpação de acto próprio.
A quem denunciar irregularidades
Dependendo da área de actuação usurpada:
- Ordem dos Psicólogos Portugueses: para práticas clínicas não autorizadas por psicólogos não credenciados
- Ordem dos Nutricionistas: para planos alimentares ou intervenções clínicas sem cédula
- Ordem dos Médicos, Ordem dos Enfermeiros, Ordem dos Farmacêuticos: conforme a área de actuação indevida
- Polícia Judiciária ou Ministério Público: quando houver risco para a saúde pública ou violação da lei
Como agir ao identificar um caso suspeito
- Verifique as credenciais do profissional
- Solicite provas da sua formação ou inscrição numa ordem profissional
- Se houver dúvidas fundadas, contacte a ordem competente
- Quando houver risco para a saúde ou segurança, denuncie também às autoridades policiais
Como escolher um bom técnico de acompanhamento
- Verifique se tem formação específica e não apenas um curso online de fim de semana
- Avalie se entende a condição com que trabalha (ex.: PHDA, ansiedade, dificuldades de aprendizagem)
- Prefira quem colabore com outros profissionais (ex.: psicólogos, médicos, nutricionistas)
- Evite quem promete soluções rápidas ou “cura” de doenças
Formação e certificação profissional
Em Portugal, embora o termo “coach” não seja legalmente regulado, a Sociedade Portuguesa de Coaching Profissional (SPCP) assume um papel central na definição de boas práticas e certificação dos profissionais. Para ser reconhecido pela SPCP, um coach deve:
- Frequentar formações completas, com duração, conteúdo e práticas avaliadas segundo os parâmetros da SPCP.
- Realizar avaliações teóricas e práticas, com exames de competências.
- Estar sujeito a um código de ética; os membros podem ser sancionados ou excluídos caso o violem.
Formações curtas ou genéricas, especialmente nas áreas de PHDA, muitas vezes não cumprem estes requisitos e não conferem credibilidade profissional suficiente.
Consequência prática: Quando procurares um coach:
- Verifica se é membro da SPCP, com formação completa e certificação em vigor;
- Desconfia de programas autopropostos em “coaching para PHDA” sem base formativa sólida;
- Lembra que, sem esta formação adequada, quem se intitula “coach” pode não estar habilitado para acompanhar profissionalmente, mesmo que o título o sugira.
Conclusão
O acompanhamento técnico pode ser uma ferramenta poderosa — mas não é tudo, nem serve para todos os casos. No contexto da PHDA, pode ser um excelente complemento à terapia, desde que seja bem enquadrado. Já noutras áreas da saúde, o uso abusivo do termo “coach” levanta sérias questões éticas e legais.
Procure sempre informação fidedigna, consulte profissionais credenciados, e use o acompanhamento como mais uma peça no puzzle — não como substituto para o que só a ciência pode garantir.
Este artigo é informativo e não substitui aconselhamento médico, psicológico ou profissional especializado. Em caso de dúvida, consulte profissionais credenciados.




